segunda-feira, 8 de junho de 2009

BLOGAGEM COLECTIVA "A ALDEIA DA MINHA VIDA"

A aldeia da minha vida





Fotos de Nuzedo de Baixo
Pareceu-me esta iniciativa da Susana que tem, entre outros, os blogs "Clube das Mulheres Beirãs" e "Descubra as aldeias históricas de Portugal", uma excelente oportunidade de se divulgar um pouco do nosso património sócio-histórico-cultural através de aldeias do nosso país que, não raras vezes, nós próprios, portugueses, tão mal conhecemos e amamos.


Costumo dizer que não tenho "terra"! Nas férias, fins-de-semana prolongados, Natais... quando ouvia amigos e colegas dizerem : "Vou até à terra!", eu ficáva sempre com aquela sensação de pária porque não tinha"terra" para onde ir!!!
Nascida e criada em Lisboa, esses períodos de lazer eram passados aqui mesmo ou noutros locais que não eram a "terra" de ninguém da família.
Evidentemente que, ao longo dos anos, conheci terras lindíssimas, fossem elas aldeias, vilas ou cidades do nosso país mas nenhuma a que eu pudésse chamar "a aldeia da minha vida"!
Acontece que casei com um transmontano dos sete costados!!! Filho, neto, bisneto, trineto, tetraneto, ..., de transmontanos por parte materna e paterna, o meu marido é um genuíno filho das terras para além do Marão!!!
Embora, efectivamente, só tenha vivido cerca de 6 anos dos seus quase 53 na sua aldeia natal (dos 2 aos 7 viveu em Moçambique, fez a Primária na aldeia e, depois, partiu para Coimbra e, mais tarde, Lisboa, para estudar), os meus sogros mantiveram-se em Trás-os-Montes até falecerem.


Por isso, elegi a sua aldeia natal, um lugarejo nas margens do rio Tuela, perdido nos montes da Terra Fria transmontana, como a aldeia da (sua) minha vida. Chama-se Nuzedo de Baixo.



UM POUCO DE HISTÓRIA...


A aldeia de Nuzedo de Baixo pertence à freguesia de Vale das Fontes, concelho de Vinhais, distrito de Bragança.
Outrora, esta aldeia foi, ela própria, uma importante freguesia independente. Aqui se situa o famoso complexo mineiro de Nuzedo/Ervedosa, actualmente paralisado. Fez acorrer à região gente de origem e culturas diferentes que, enraizadas, deram origem a uma população mista com traços antropológicos distintos da que permaneceu na zona norte.
A exploração de estanho manteve-se até 1969 quando os proprietários abandonaram a mina a céu aberto. Muitas centenas de pessoas emigraram. Resta a memória de uma época áurea: há mais de meio século já a aldeia tinha central eléctrica, ruas calcetadas a granito, água canalizada, cinema de manivela e um campo de futebol que também servia para o avião do dono das minas aterrar.
Hoje, é um autêntico museu de arqueologia industrial!
Nuzedo aparece nas Inquirições de 1258 com um grande manancial de informações. Por elas ficamos a saber que D. Afonso Henriques doou, em data desconhecida, a um tal Fernando de Anais, metade da "villa" de "Luzedo qui vocatur de sub castelo" e este indivíduo deu-a ao Mosteiro de Cadões ou Monte do Ramo.
No séc. XIV ou XV, passa a paróquia. Já no séc. XVIII surge como freguesia mas, na primeira metade do séc. XIX é anexada a Vale das Fontes.



A VIDA NAS MINAS...

Segundo o geógrafo Carlos Patrício, natural da aldeia de Nuzedo de Baixo, as minas são um testemunho vivo de um espaço de exploração, onde não havia domingos nem dias santos e onde nunca se ouviu falar de direitos de trabalhadores.
Carlos Patrício acompanhou, desde muito novo, a actividade mineira e conta como era dura a vida dos mineiros. “Vivia-se uma realidade incrível, que hoje é difícil de imaginar. Os verdadeiros mineiros demoravam, apenas, quatro a cinco anos até ficarem completamente liquidados com silicose”, enfatiza o geógrafo.
"A dureza dos trabalhos e a propagação de doenças, devido à contaminação do minério, eram os problemas que viviam com os mineiros e com a sua família. Havia famílias inteiras a trabalhar nas minas. Para além disso, as crianças conviviam diariamente com pessoas tuberculosas. Eram tempos muito difíceis para estas pessoas, que arriscavam a vida para ganhar dinheiro e sobreviver”, realça Carlos Patrício.
Na óptica de muitos especialistas, devia haver apoios para recuperar o Couto Mineiro, que para além de representar parte da história transmontana é um local que poderia ser recuperado e inserido num roteiro turístico capaz de trazer visitantes ao Nordeste Transmontano. Esta posição é partilhada pelo geógrafo Carlos Patrício, que lamenta a perda daquele património.“É importante recuperar aquelas minas e sinalizar as zonas perigosas, nomeadamente os fornos de arsénio e as partes do terreno que estão contaminada. Posteriormente, esta zona devia ser aproveitada para o turismo, através de visitas guiadas e aproveitando as memórias das pessoas que trabalharam nas minas e ainda são vivas”, salienta o geógrafo.


A ACTUALIDADE...

Não consegui saber qual o número de habitantes que vive, actualmente, em Nuzedo de Baixo mas sei, porque o meu marido ainda tem lá vários familiares, que são já muito poucos e, na sua maioria, idosos.
O encerramento das minas provocou a emigração de muita gente principalmente para França, Alemanha e Espanha. A falta de braços para trabalhar a terra, boa para o cultivo da batata e do centeio, entre outros, rica em oliveiras, castanheiros e carvalhos, para levar o gado a pastar... levaram à degradação da aldeia e das condições de sobrevivência dos habitantes.
Os meus próprios sogros viram-se obrigados a sair de lá e, embora não saindo do seu amado Trás-os-Montes, procurarem outro modo de vida em Mirandela. Depois do meu sogro falecer, a minha sogra viria a vender o património da família por não haver quem trabalhásse na terra.
É urgente olhar para as aldeias do nosso país, principalmente para as do interior profundo, esquecidas, ostracizadas. maltratadas e mal-amadas!
Ainda conheci Nuzedo com alguma Vida, lembro-me como fui bem recebida e acarinhada (e como me atolei com os meus saltos altos, até aos tornozelos, menina ignorante da cidade, na lama do pátio inferior da casa onde galinhas, perús, patos e porcos conviviam, na primeira vez que lá fui!!!). Da última vez que visitei a aldeia (e já lá vão uns anos...) era já uma terra a morrer.
Haja alguém que a "ressuscite", assim como a muitas outras. Os nossos antepassados merecem-no, os nossos filhos e netos têm direito a conhecer o seu verdadeiro Portugal!

























27 comentários:

  1. Bom dia GabY
    Muito completo o seu relato de Nuzedo de Baixo.
    Pena mesmo é a desertificação!
    Eu continuo "sem Terra, por isso não entrei nesta blogagem...
    Bjs.

    ResponderEliminar
  2. Parabéns pelo texto e pela aldeia que não sendo, é da sua vida. Também eu escrevi sobre a aldeia dos meus sogros, Brunhoso, concelho de Mogadouro.
    http://brunhoso.blogspot.com/
    cumprimentos (e boa sorte no concurso)
    Aníbal

    ResponderEliminar
  3. Mil caminhos
    Esta viagem sem velas nem vento
    Este barco na bolina das ondas
    Esta chuva miúda transborda sentimento

    Amarras prendem o gesto
    Arrocham um coração que bate incerto
    Uma gaivota retoca as penas com espuma
    Levanta voo em rumo concreto

    Partilha comigo “100 Anos de Ilusão”


    Mágico beijo

    ResponderEliminar
  4. Xiiiiiiiiii.... é mesmo Nezudo de Baixo dos confins do mundo eheheheh
    mas parece muito calma para passar 2 dias de férias... ir e voltar eheheh

    Bom apanhado da aldeia. E a vista é linda sem dúvida! Parabéns pela tua participação :)

    Beijinho

    ResponderEliminar
  5. Belíssima participação. Uma das mais bonitas e completas que vi. Parabéns

    ResponderEliminar
  6. POis é!
    eu não sou dai. Mas participei mesmo assim. Não posso concorrer.
    Venha ver se gostou da minha viagem.
    Bjs.
    sandra

    ResponderEliminar
  7. A minha família é toda de Bragança. Só eu é que vim nascer em Lisboa. Penso que já passei nesta aldeia, algures num volta alargada com o meu avô há muitos, muitos anos. Excelente descrição da vida nestas terras difíceis. Parabéns.

    ResponderEliminar
  8. Gabi,

    Falar da nossa terra, mesmo que seja pela lembranças dos outros, sempre é uma emoção e tanto.

    Menina linda, muito obrigada pelo carinho no dia do meu aniversário. Nada é atrasado quando é desejado com o coração.

    Que sua semana seja de luz!

    Rebeca

    -

    ResponderEliminar
  9. "Da última vez que visitei a aldeia (e já lá vão uns anos...) era já uma terra a morrer.
    Haja alguém que a "ressuscite", assim como a muitas outras. Os nossos antepassados merecem-no, os nossos filhos e netos têm direito a conhecer o seu verdadeiro Portugal!"

    Gaby: Este último parágrafo sintetiza a triste realidade em que vivem as nossas aldeias.

    De facto não sei se os nossos filhos ou netos terão o privilégio de sentir o verdadeiro calor humano das nossas aldeias.

    Parabéns pela tua postagem! Decidiste-te à última, mas saiste-te muito bem! Obrigada por participares nesta blogagem.

    Aproveito para informar a todos os interessados, de que:

    A votação começa amanhã, dia 10 e acaba dia 28 de Junho no blogue da aldeia da minha vida.

    Para votar, poderá faze-lo amanhã deixando um comentário ao texto que considerar o melhor.

    Um comentário transforma-se num voto.

    Até amanhã!

    Bjs Susana

    ResponderEliminar
  10. Para votar têm que aceder ao blogue:

    www.aldeiadaminhavida.blogspot.com

    ResponderEliminar
  11. Não tenho histórias de aldeia - a não ser que meu avô veio de Esposende, onde tenho ainda alguns parentes.
    Nunca consegui chegar até lá - só virtualmente.
    Mas a palavra aldeia lembra -me fogo de lenha a fazer as comidas, lembra-me útero de mãe, lembra-me um lugar onde se pode estar seguro.
    Pena que não tenho uma...

    ResponderEliminar
  12. Obrigada a todos pelos vossos comentários. Vou responder-vos nos fespectivos blogs.

    Bjs e abraços.

    ResponderEliminar
  13. Gabi!!!
    Acabei meu tour de aldeias e não vi seu blog! Pensei que tivesse visitado todos... pode ser que voce tenha postado mais tarde!
    Vou lá te ler com certeza. Que delicia de comentário. sem duvida vou conhecer Sesimbra quando voltar a Portugal. Tenho uma amiga no Brasil que veio de lá e sempre me fala com muito carinho da sua querida Sesimbra!

    Comovente seu apelo sobre o regate dessas aldeias que são um rico patrimonio historico-cultural. Belissima participação Gabi!

    Beijos!

    ResponderEliminar
  14. É verdade Gabi! Eu imaginei que essa blogagem da Susana fosse se tornar algo muito especial, tanto pela excelencia com que ela faz as coisas, quanto pelo potencial do tema. Dito e feito, foi para mim uma agradavel viagem de uma aldeia a outra e sobretudo absorvendo o que o que há de mais precioso, as marcas desses recantos na vida das pessoas!

    Boa viagem e bom descanso em Sesimbra!

    Beijos

    ResponderEliminar
  15. GABY MULHER, Não estás só ...eu também nao tenho terra, e pior nem a do marido porque ele é da mouraria ahahahh e tu sempre ias de vez em quando comer umas alheiras agora eu nem farturas ahaha mas vinguei- me indo anos a fio para o campismo ......, mas infelizmente já nem isso posso fazer por causa dos meus recentes amigos Nooky ,Tommy e becas e nem uma casita de férias , sim porque isto de se ser de Lisboa e ser professora e marido empregado de socrates não se tras azeite , nem batatas da terra e gasta-se tudo no continente ... mas tenho dito CHEIRA a LISBOA :.. Viva Lisboa e a maternidade Alfredo da COsta

    ResponderEliminar
  16. Voltei!!!

    Obrigada pela sua presença enqto estive ausente.

    Tem flores la pra vc.

    beijooo

    ResponderEliminar
  17. Pelas imagens e descrição que você colocou parece ser um lugar encantador!

    ResponderEliminar
  18. Gaby!
    Eu também participei, sem concorrer. Amei fazer este passio por lá.
    Está em meu blog. coletivo.
    Passe em curiosa e leve o selo de 3.000visitasd.Ele também é seu.
    Sandra

    ResponderEliminar
  19. Gaby,
    tens um Prémio para ti e uma só regra a cumprir.
    Não custa nada e é interessante a pergunta a responder.
    Agradecida :)

    Beijinho

    ResponderEliminar
  20. Oi, Flor!
    Tem selinhos for you lá no blog.
    Bjo.
    =*

    ResponderEliminar
  21. GABY:
    DEVANEIO SÓ, EM BUCÓLICA CIDADELA ESSA, LINDA PELA SIMPLICIDADE QUE EMANA, E PELAS CORES QUE NELA INOCULAS E SUSSURRAS!
    BELO BELO BELO!

    VIVA VIDA!

    ResponderEliminar
  22. Ei linda, td bem? Andei meio sumida,mas sempre que der passarei nem que seja pra deixar um bjo tá?
    Cuide-se tenha um lindo fim de semana.

    ResponderEliminar
  23. Amiga gabi
    Tem aqui um belo blog.
    É bom sabermos que estamos colectivamente a participar na blogagem colectiva “A Aldeia da Minha Vida” e assim a contribuir para a divulgação do nosso País.
    Parabéns pelo seu texto.
    A partir de agora estarei atento ao seu blog.
    Um abração
    Castela

    ResponderEliminar
  24. Um muito obrigado à minha mulher por me ter feito regressar ás minhas memórias da pouca infância que passei em Nuzedo de Baixo. Ao ver as imagens recordo a casa dos "patrões Ingleses" onde o meu pai foi jardineiro - agora matagal, a cantina onde o meu pai era o encarregado - agora em ruinas. E um sem número de imagens que me parece que foi ontem que eu nasci lá. Sofri com as badaladas da Sta Bárbara - ou afugentava trovoadas ou anunciava acidente grave na Mina. Enfim, que mais dizer? Que ainda hoje eu volto à Mina como tanta vez eu fui esperar com o meu primo Zé o Tio Acácio que caminhava por carreiros nos Montes cerca de 4 km para ir à Central Eléctrica: à Torga! E tanta história de suor, de silicose e de sangue que escutei e vi! Horrivel. Hoje ainda nos queixamos das faltas de condições de trabalho; reclamamos o ar condicionado(quente ou frio; faz-se greve para reclamar os direitos adquiridos por uma Constituição que na altura não havia; fazem-se abaixo-assinados contra as condições infra-humanas em que muitos povos vivem; e nas Minas do Tuella nada era permitido. E havia a GNR, filhos de outras Terras que guardavam bem os tesouros escondidos, os filhos dos patrões e calavam qualquer veleidade que surgisse da boca de um mineiro que apenas reclamava respirar um pouco o ar sem o pó de silício ou fugir da explosão de metano ou ainda por pedir que tratassem de revisões das vagonetas. Tanta memória que escutei e que também silenciei porque era menor de idade!
    Também servi de cobrador de dívidas que os Mineiros tinham na "taberna" do meu pai onde tudo se vendia desde tabaco Kentuki a tecidos e até urnas funerárias. Andava todos os Sábados com a "papeleta" na mão e a tocar de porta em porta a pedir algo para abater nas dívidas. E uma "colheita" de 5-10 escudos era fabuloso. Tinha como prémio 2 tostões. O meu irmão tinha vergonha desta tarefa. E o meu pai também porque afinal era também filho de Mineiro e sabia das desgraças familiares deste povoado mineiro.
    Obrigado mulher. Foi bom recordar com uma lágrima ao canto do olho tempos da minha meninice.

    Gilberto Dias Borges

    ResponderEliminar
  25. A todos agradeço os vossos sempre preciosos comentários. Respondi-vos nos respectivos blogs.
    Beijinhos.

    ResponderEliminar
  26. Gil,

    Eu pp estive em Nuzedo várias vezes e ainda a conheci c alguma vida. Mas, através das tuas recordações, tantas vezes comigo partilhadas, aprendi a conhecê-la melhor!
    Um beijo e obrigada por ma teres "emprestado".

    ResponderEliminar
  27. Manuel Carlos Patrício24 de junho de 2009 às 18:51

    Olá Gaby!

    Gostei muito do teu texto e do comentário do Gilberto. Sinceros parabéns para um e para outro.
    Como a terra é nossa (pois é tua também) e eu tenho alguns textos publicados sobre a história de Nuzedo, sobre o seu dia a dia nos anos cinquenta e sessenta e sobre a história das minas, se estiveres interessada nessas leituras, diz qualquer coisa pois eu posso mandar-te isso por e-mail em anexos e em suaves prestações para não cansar.
    Beijinhos.
    Carlos Patrício

    ResponderEliminar